quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Sobre Enxaqueca

Quero, antes de mais nada, deixar claro que não receito ou indico nada neste texto. São narradas apenas as minhas experiências.

Não sei precisar quando a dor de cabeça surgiu na minha vida em forma de enxaqueca. Desde criança, minha cabeça doía muito, por conta da sinusite.

Um dia, minha mãe me levou ao "seu" Procópio, curandeiro conhecido por estas áreas em que vivo. Devia ter por volta dos meus doze anos, e ele me disse que a dor de cabeça passaria quando eu tivesse a menarca e,  aquele período, não deveria lavar a cabeça.

Passei a contar os dias para ter a primeira menstruação, mas ela chegou perto dos catorze anos. E, para desafiar o velho sábio, lavei a cabeça todos os dias, pela manhã e pela noite. Nada me tira a certeza de que minha dor é fruto da maldição do finado mago!

Com o passar dos anos e com a cabeça sempre doendo, associei que ela doía quando eu menstruava. Usei fitoterápicos que de nada adiantaram. Quando ficava grávida, a cabeça não doía, logo, associei a dor àqueles dias.

Dizem que as piores dores que existem são: de cólica de rins, de dente e de parto. Tive todas. E por conta das lendas urbanas, tinha tanto medo de parto que fiz uma cesárea tendo quase nove dedos e dilatação. Contudo, a pressão arterial subiu tanto que não podia correr riscos. Eu não morri de dor daquelas contrações. Aliás, se fossem assim tão terríveis, mulheres de origem mais humilde não teriam um filho por ano. A cólica de rins coloca a gente de quatro e nos faz uivar como lobo. Mas ela tem data pra acabar: até que as pedras sejam expelidas ou o rim arrancado. Dente? Se o analgésico não resolver, o período máximo de dor é de dois dias, se a dor começar na sexta a noite e ninguém achar um dentista de plantão. Na segunda, alguém arranca o nervo do dente e fim da dor.

E a dor de cabeça? Não dá para arrancá-la e ela não tem prazo para acabar, ai da mais quando se trata de enxaqueca, que é doença crônica.

Tive tempos na vida em que ela era muito constante e eu não sabia nunca como seria o dia seguinte. Já fui levada de ambulância por três vezes para a Beneficência Portuguesa, entre 1995 e 1997. Devem ser muito poucas as pessoas que me conhecem e nunca me socorreram em estado de cegueira total para um pronto socorro. Já fui frequentadora do Nove de Julho, que começou a lotar. Passei para o Oswaldo Cruz, que colocava a coisinha mágica na minha veia e em uma hora eu estava bêbada, mas sem dor. Minha última vez neste hospital foi sob ameaça da minha comadre de chamar a polícia caso não me atendessem imediatamente. Hoje, só saio de casa para ir ao hospital se o corredor Norte-Sul estiver livre. Entro no Sírio e depois da coisinha mágica, vejo a vida ficar colorida de novo.

Ontem, quando pedi socorro pelo Facebook, percebi como as pessoas são solícitas e imediatas para ajudar alguém em desespero. Era este meu estado. No dia anterior, havia ingerido doses consideradas perigosas de remédio e a coisa saiu do controle.

Agradeço imensamente tudo que me foi sugerido e vou contar agora o que eu já fiz pela enxaqueca.

Durante anos, procurei a causa. Quando ressonância magnética era novidade em terras canarinhas, consegui direito a fazer pelo convênio, que cobriu uma parte do exame e o restante foi particular. A tomografia já não adiantava. Minha dor era tanta, que torcia para encontrar um tumor na cabeça. Para mim, encontrando o tumor, era só retirá-lo e a dor iria embora junto. Nada. Cabeça dentro dos níveis considerados normais (se é que alguém é normal)!

Fiz uma peregrinação em médicos de várias especialidades e mesmo tendo preguiça como segundo nome, jamais desisti ou hesitei em qualquer indicação. Fui para onde me mandaram, paguei o quanto me cobraram, fiz e usei tudo que me receitaram.
Uma das minhas primeiras buscas foi com um clínico geral, naquela época, do Sírio Libanês. Dr. Henrique Parsons. Tentou curar minha enxaqueca com antidepressivos. A dor continuou. Quando Peteleco nasceu, quase oito anos atrás, passei a usar o DIU Mirena, não como contraceptivo, mas como um paliativo para crises. Com ele, parei de menstruar. E as dores continuaram. Um dia, passando tão mal na faculdade, minha professora me deu o caminho da salvação: Naramig. Serviu por uns dois meses e deixou de fazer efeito. Mais uma vez, passei mal na faculdade e outra professora me indicou um novo caminho: Ormigrin. Milagroso. Por três meses. Próxima tentativa foi uma ginecologista e endocrinologista, Dra. Luciana Tock. O pai dela, renomado endocrinologista, com a chegada da idade foi passando sua clientela para a filha. Apesar da fidelidade ao meu ginecologista, lá fui eu para Osasco, depois de meses de espera. Amei a médica, que tentou tudo que pode e eu segui tudo ao pé da letra. Usamos fitoterápicos, medicamentos homeopáticos, alopáticos, antroposóficos e a dor continuou. Desisti de ir tão longe. Chegou ao meu conhecimento o nome do dr. Ibsen Damiani, neurologista da Santa Casa. Agendei a consulta e aguardei por uns três meses. No dia, esperei por cinco horas para ser atendida.
A consulta com o dr. Ibsen merece um parágrafo a parte. Após a anamnese, ele me disse que noventa e nove por cento do que eu narrava descrevia enxaqueca, mas ele não poderia me tratar sem ter 100%. Passou-me antidepressivos e anti-inflamatórios e pediu que eu fizesse um diário por quarenta e cinco dias, anotando tudo que eu sentia, fazia, comia. Assim, conseguiríamos detectar um padrão. Durante este período, não tive dores e a conclusão do doutor foi a de que eu não tinha enxaqueca, e sim, estresse. Continuei o tratamento com ele, mas as crises voltaram e os remédios já não faziam efeito.
Certo dia, em uma consulta com a dermatologista, fui encaminhada para a Dra. Ana Betim, cardiologista do Sírio Libanês. Com a interferência da dermato, consegui a consulta para o dia seguinte. Dra. Ana foi muito humana e acolhedora. Pediu-me uma série de exames e diagnosticou-me hipertensa. Cortei o sal da alimentação, embutidos, caldos de carnes e afins (os quais usava muito) e a pressão baixou. Mas a cabeça continuou a doer. Após uma polissonografia, ela achou que eu tinha dores de cabeça devido a minha má qualidade de sono. Fui então encaminhada ao dr. Geraldo Lorenzi, especialista do sono, do INCOR. Nesta mesma época, indicaram-me o dr. Wilson Sanvitto, renomado neurologista daqueles que a gente entra com a esperança e sai sem as calças. Assim como a maioria dos médicos os quais passei.
Não existe remédio para enxaqueca que eu não tenha usado. Não existe um bom médico especialista que eu não tenha consultado. Não existe método contra a enxaqueca que eu não tenha usado. Durante o tempo em que fiz acupuntura, não tive enxaqueca constante. Contudo, não tenho tempo e nem dinheiro para fazer acupuntura duas vezes por semana, para, ainda assim, ter dor de vez em quando.
Há dois anos, trato-me com uma médica de família. Uma especialidade nova, ainda pouco usada, mas que trata, assim como na homeopatia, o paciente como um todo, e não uma doença. Esta médica, acabei descobrindo, é ginecologista de um grande número de mulheres que conheço. E também médica ortomolecular. Dra. Luciana Sussenbach  é além de minha médica, minha aliada e minha amiga. Torce por mim, cuida de mim com amor e carinho como que uma mãe cuida de um filho. Disse-me por várias vezes que está junto comigo e jamais desistirá da minha causa.
Juntando vários fatores, temos as causas da minha enxaqueca: se fico estressada, tenho enxaqueca. Se não durmo bem a noite, tenho enxaqueca. Se como qualquer lácteo, tenho enxaqueca (a intolerância à lactose foi descoberta em uma dieta detox). Se como pão, tenho enxaqueca (não tenho doença celíaca, mas a intolerância ao glúten também foi constatada em outra dieta detox). Se eu tomar sol, tenho enxaqueca. Se eu chorar, tenho enxaqueca. Logo, se eu vivo, tenho enxaqueca.
Recentemente, passei no dr. Franklin Ribeiro, renomado psiquiatra que me fez uma série de testes e exames, dando em definitivo um diagnóstico de Transtorno de Ansiedade. Logo, o estresse é uma constante na minha vida. O excesso de futuro e a falta de presente. E como não se estresssar?
Tomo medicamentos controlados. Não por coincidência, o dr. Franklin receitou-me exatamente os mesmos medicamentos que a Dra. Luciana Sussenbach. São cinco medicações diárias diferentes. Custam caro. Fora os suplementos que tomo, como melatonina e outros minerais ortomoleculares, que custam caro.
Nas crises, já usei choque térmico, esquentando ao extremo os pés e colocando gelo na cabeça. Evito comer aquilo que me faz mal, mas, como disse, preciso viver, e é difícil controlar tudo na vida o tempo todo. Muitas vezes, as crises duram dias e dias, e esta última durou cinco semanas, alternando em dias piores e dias muito piores.
Também faço há oito meses tratamento espiritual semanalmente. O que me ajuda muito e é um dos meus grandes alicerces para a dor.
Ontem, após receber tanto carinho, indicação de tantos medicamentos e pensando que já tinha tentado todos eles, liguei para a Dra. Luciana chorando. Ela me mandou tomar Flanax. Vejam bem, minha médica, com quem eu me trato há dois anos, que me conhece, sabe como são minhas dores, mandou eu tomar Flanax. Outra grande amiga lembrou-me que era terça-feira, dia de tratamento espiritual, e pediu que eu não deixasse de ir.
Curiosamente, a dor começou a amenizar antes que eu saísse de casa para comprar remédio. E quando cheguei à consulta espiritual, já conseguia rir. Fiquei sem entender como a dor passou. Ajuda divina?
As pessoas que não sabem o que é esta dor, podem achar bobagem, mas quem sofre, acredita em tudo. Acredito, sim, na ajuda divina. Mas ontem ela veio de outra forma, que só soube bem no final da noite, quando uma amiga mandou-me uma mensagem dizendo que sua mãe havia feito para mim um tratamento de radiestesia. Se eu sei do que se trata? Não. Vou ler tudo agora sobre isto. O que sei é que um conjunto de ações ontem fez com que eu saísse daquele estado de dor que já durava quarenta dias.
Enxaqueca não é uma patologia feminina, assim como não é exclusiva de pessoas obesas. Todos podem ter enxaqueca, entretanto, a alimentação saudável e equilibrada é sem dúvida a melhor aliada para evitar crises, e digo isto porque durante um ano, tratei-me quinzenalmente com uma nutricionista funcional, e toda a alimentação e suplementação que usei naquele período me fizeram muito bem.
Agora preciso repensar o modo de vida que tenho levado, os níveis de estresse fora de controle, centrar os olhares apenas em mim e viver de forma leve e sem dor.
Tenho que encerrar este pequeno capítulo da minha vida com um agradecimento sem tamanho para todos aqueles que ontem tentaram interceder e me ajudar de alguma maneira. Todo o carinho foi essencial para que hoje eu acordasse sem dor, embora ainda um pouco mareada pelos consecutivos dias ruins.
Se você é vítima de enxaqueca também, busque seu caminho. Pode ser menos árduo que o meu, pode dar certo com coisas que comigo não deram. Mas não desista, pois só quem sofre deste mal, sabe o que é não conseguir sentir cheiro de nada, ouvir nenhum barulho, desejar que o mundo seja eternamente escuro e rogar por um milagre para que aquele latejar constante seja interrompido a qualquer instante de forma milagrosa.
E se você chegou até aqui, parabéns! Além de meu amigo, se interessou pela minha história. Desejo-lhe boa sorte!

17 comentários:

  1. Tenho enxaqueca braba assim como a sua. Já tomei todos os remédios possiveis e impossiveis de se tomar, já faço tratamento com antidepressivos e para pressão alta, mas detalhe minha pressão é baixa! Já fiz acupuntura, uso placa para dormir por conta do bruxismo, já fiz tratamento espiritual diversas vezes, já fiz yoga, já fui a dezenas de neuros...Enfim... Sofro muito com isso também. Além do preconceito das pessoas que acham que uso a enxaqueca como desculpa para não sair, não comer, não beber, mas elas não tem essa dor! Se bebo álcool, se como algo mais gorduroso ou com muitos condimentos...quem se ferra sou eu! MAs acham que é frescura minha! Além de ficar mega estressada com a dor da enxaqueca ainda tenho que lidar com esse tipo de gente! Afff... Acho um saco isso! Só entende quem tem essa dor! Já tive crises que duraram um mês todo!!! Outras que passam em um dia. Não posso me dar o luxo de dormir durante o dia! Ou mesmo de dormir até mais tarde! :(
    Sei o que vc passa!
    Beijos
    Adriana

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  2. Amiga, EU TE ENTENDO!!!
    Não poderia relatar com tantos detalhes, porque meu DDA não me deixa ter essa precisão no cortar a história. Mas no meu blog tem uma tag "Enxaqueca". Veja este post:
    http://www.deixoler.com/2010/10/ensaio-sobre-enxaqueca-atualizado-ou.html

    Beijo, e melhoras...

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  3. Ai que peninha que me dá das pessoas que tem enxaqueca.
    Tive uma vez, sim uma vez na vida, devia ter uns 22 anos ......
    O dia inteiro com aquela dor infernal. E no dia seguinte, estava ´ptima! NUNCA MAIS TIVE, até hoje não tem explicação!
    Husband tinha muitas e muitas durante uns anos e quando começamos a construir nossa casa ele, milagrosamente, nunca mais teve.Sem explicações também.
    Tenho uma amiga/vizinha que sofre horrores assim como você. Tudo que leio passo para ela (mas ela tem um agravante: fuma muito!). Vou passar esse seu relato para ela, ok? É um alento, eu acho. Indico livros e livros que outras pessoas já leram e disseram que melhoraram 80% das dores.
    Espero que você fique boa rápido, que nunca mais tenha enxaquecas, que consiga não ser tão ansiosa (eu sou demais) e que todos os dias acorde sem dor e sorrindo para a vida linda!
    Beijos.

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  4. Ursula, Pandinha...

    Posso dizer que tive um certo convívio com a classe médica e mudei radicalmente meu conceito em relação a grande parte desses profissionais. Só quem de fato sente a dor sabe o quanto é desesperador conviver com ela e tem urgência em resolver o problema.
    Veja, por exemplo, a história dos Odone contada no filme O óleo de Lorenzo... Se não assistiu, tenho certeza que vale muito a pena Ursula...
    Acredito que vibrações positivas e orações influenciam sim a pessoa que é alvo dessas energias. Fica aqui a minha vontade de te ver bem... :)

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  5. Já tomou a água com gengibre?
    (leu o post que lhe enviei?)
    Quem sabe, né?
    Às vezes a solução está onde menos esperamos.
    Beijo. Ursula.

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  6. Pesquisando mais uma vez sobre enxaqueca achei o seu relato e me identifiquei muito. Ando com medo de ter enxaqueca. Pode? Sim, tenho medo das crises, pois acho que não vou aguentar .

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  7. È limitante. Já fui em diversos médicos, hoje faço tratamento com o Dr Josè Renato Bauab do Sírio, tomo propralonol e Lexapro todos os Dias e durante as crises, Naramig, flanax, dramin

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  8. E muitas vezes tenho que ir para o hospital. Enfim, queria

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  9. Uma solução, não aguento mais viver dessa forma. O pior è que só entende quem tem.... Minha mãe fala que è o meu fígado, que como muito chocolate, que não descanso..... Algumas amigas dizem que é frescura, desculpa para não ir em alguma comemoração. Eu já virei até motivo de risada por causa da minha dor. Ontem mesmo uma amiga me perguntou : " como vc não tratou isso ainda" ? Não acredito que vc ainda tem enxaqueca.....

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  10. Espero que vc consiga diminuir a intensidade

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  11. Te entendo muito!!! Me vi no seu post....

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  12. Coloquei minha enxaqueca totalmente sob controle utilizando suplementação de melatonina (: fica a dica.

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  13. Adorei seu texto. Sofro do mesmo mal e vc conseguiu externar nosso sofrimento com muito humor. Apesar de não ser nada engraçada a nossa vida. Às vezes e por muitas vezes o que só queremos é viver mesmo. Coisa básica, normal. Também estou na luta e vamos nessa, sem deixar a peteca cair. Me fala da Melatonina? Já ouviu falar de 5HTP? Uso Depakote, mas não tá adiantando mais.
    alinelaginestra@hotmail.com

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  14. Úrsula, muito bom seu Blog, tenho enxaqueca desde os 15 anos, tomo Mirtax e frontal nas crises e quando não suporto mais o Toragesic para não "viciar" meu organismo e tomoar medicamentos cada vez mais fortes.Tomo Egide (topiramato) continuamente, o que me causa problemas de memória, mas tira as crises constantes, só tenho crise quando estou muito estressada ou quando vou menstruar e coincide com o stress, de dois em dois meses por aí, o que já é uma vitória no meu caso que passava até 3 meses com dor. Alimentação tbm conta muito, frutas ácidas (principalmente Maracujá), pimentão, pimenta, queijos, embutidos, coca-cola e chocolate eu procuro evitar. Muita claridade, muito barulho...etc...são sintomas iguais para quase todo mundo. Acho muito válido trocarmos experiências. Quando vou ao hospital tomo Tramal na veia...Aprictil me fez mto mal...meu Neurologista disse que enxaqueca é um tipo de alergia, já ouviu falar nisso? Eu sou muito alérgica, quando tomo antialergico não tenho crise...acho que por estar intimamente ligada a alimentação e ao stress pode ter muito a ver sim! Em fim, um dia todos possamos viver sem essa quêca! Um abraço Veruska

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  15. veruska1705@hotmail.com

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